Picos fica no centro-sul do Piauí, a 310 quilômetros de Teresina. É uma cidade de tamanho médio, com uma economia baseada no comércio regional e na agricultura. A Escola Municipal Antônio Conselheiro atende 312 alunos do ensino fundamental, a maioria filha de trabalhadores rurais e pequenos comerciantes.

Em 2022, a taxa de evasão escolar da escola era de 18% — acima da média estadual. A diretora Conceição Batista, que leciona português há 22 anos, decidiu que o problema não era falta de vagas nem de professores. Era falta de razão para ficar.

"A gente perguntou para os alunos que abandonavam a escola por que eles saíam. A maioria não falava de trabalho, não falava de distância. Falava que a escola era chata. Que ler era difícil e não servia para nada", conta Conceição.

A varanda que virou biblioteca

A solução começou pequena. Conceição pediu livros doados nas redes sociais — não livros didáticos, mas romances, histórias em quadrinhos, biografias, livros de curiosidades científicas. A resposta foi além do esperado: em três meses, chegaram mais de 800 volumes de toda a região.

A varanda da escola, que servia de depósito, foi transformada em um espaço de leitura informal. Sem fichas de empréstimo, sem horários rígidos, sem obrigação de devolver em prazo fixo. Os alunos podiam levar livros para casa e trazer de volta quando quisessem.

"Quando a leitura deixou de ser tarefa, as crianças começaram a ler de verdade. Um menino de 11 anos leu quatro livros em um mês. Ele nunca tinha terminado um livro na vida." — Conceição Batista, diretora e professora

Os números três anos depois

Em 2025, a taxa de evasão da escola caiu para 10,8% — uma redução de 40% em relação ao pico de 2022. O desempenho nas avaliações do SAEB também melhorou: a escola subiu 12 pontos na escala de proficiência em leitura, passando de "abaixo do básico" para "básico" na classificação do Ministério da Educação.

Mas Conceição é cuidadosa com os números. "A gente não pode dizer que foi só a biblioteca. Tivemos outras mudanças. Mas a biblioteca foi o que mais os alunos falam quando perguntamos o que mudou."

O programa foi reconhecido pela Secretaria Estadual de Educação do Piauí, que está adaptando o modelo para outras 15 escolas da região. A adaptação inclui uma pequena verba para compra de livros — algo que Conceição não teve nos primeiros dois anos.

O que não está nos relatórios

Há coisas que os dados de evasão não capturam. Uma mãe que veio agradecer porque a filha parou de pedir para sair da escola. Um pai que começou a ler junto com o filho porque o menino ficava contando as histórias em casa. Uma aluna de 14 anos que decidiu que quer ser escritora.

Conceição guarda essas histórias em um caderno. "Quando a gente está cansada, a gente lê o caderno", ela diz, com uma simplicidade que parece ensaiada mas não é.