Quando Dona Geralda Sousa plantou as primeiras mudas de pequizeiro em sua propriedade em Unaí, no noroeste de Minas Gerais, ela não sabia que estava participando de algo que, dezoito meses depois, seria reconhecido como o maior esforço coletivo de reflorestamento do Cerrado fora de programas governamentais.
O projeto Raízes do Cerrado começou como uma conversa entre três agricultores e um biólogo aposentado numa feira municipal. A ideia era simples: cada família que aderisse ao programa se comprometia a plantar e cuidar de pelo menos 200 mudas de espécies nativas em áreas de sua propriedade que já não serviam para a agricultura. Sem burocracia, sem contratos longos, sem promessas de subsídios que raramente chegam.
O que ninguém esperava era a velocidade com que a ideia se espalharia. Hoje, o projeto conta com 1.847 famílias participantes em 23 municípios do Planalto Central, e a marca de 2 milhões de árvores plantadas foi atingida em junho deste ano — quatro meses antes do prazo que os próprios organizadores tinham estabelecido.
O segredo das sementes
Uma das chaves do sucesso foi a criação de uma rede de coleta de sementes nativas. Em vez de comprar mudas de viveiros comerciais — o que encareceria o projeto e reduziria a diversidade genética —, o Raízes organizou mutirões de coleta nas poucas áreas de Cerrado nativo que ainda restam na região.
Cada família coletora recebe uma pequena compensação financeira por quilo de semente entregue, e as sementes são distribuídas gratuitamente para quem vai plantar. O sistema criou uma cadeia econômica local que não existia antes.
"A gente não está só plantando árvore. A gente está reconstruindo o que nossos avós viram e que a gente quase não viu mais. O Cerrado tem mais espécies de plantas que a Mata Atlântica, mas ninguém fala disso." — Geralda Sousa, agricultora familiar, Unaí (MG)
Resultados além das árvores
O levantamento mais recente, conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília em parceria com o projeto, identificou o retorno de três espécies de aves consideradas localmente extintas nas áreas reflorestadas. O tamanduá-bandeira, que havia desaparecido da região há mais de uma década, foi fotografado por câmeras-armadilha em duas propriedades participantes.
Além do impacto ecológico, o projeto gerou efeitos econômicos inesperados. Algumas famílias começaram a vender frutos nativos — pequi, buriti, cagaita — que antes não tinham em quantidade suficiente para comercializar. Uma cooperativa de processamento de frutos do Cerrado foi criada no ano passado e já conta com 34 sócias.
O projeto não recebeu financiamento federal. Os recursos vieram de uma fundação de jornalismo ambiental holandesa, de uma empresa de tecnologia brasileira que comprou créditos de carbono e de contribuições mensais de pessoas físicas que acompanham o trabalho pelas redes sociais. O orçamento total dos 18 meses foi de R$ 2,3 milhões — menos do que o custo de um quilômetro de rodovia estadual.
O que vem a seguir
Os organizadores já planejam a segunda fase, com meta de 5 milhões de árvores até 2027 e expansão para estados como Goiás, Tocantins e Bahia. Mas os próprios fundadores alertam para os riscos de crescer rápido demais.
"O que funciona aqui é a confiança entre vizinhos. Se a gente virar uma ONG grande demais, com muita estrutura, pode perder exatamente o que faz o projeto funcionar", disse o biólogo Marcelo Tavares, um dos fundadores, em entrevista à PositivaBR.
A questão da escala sem perda de identidade é um dos desafios centrais do jornalismo de soluções — e também, ao que parece, dos projetos que ele cobre.