Há seis anos, José Edilson dos Santos acordava às quatro da manhã para percorrer as ruas do bairro de Afogados, em Recife, com um carrinho de mão. Ele coletava papelão, plástico e metal, vendia para um atravessador e ficava com o que sobrava depois das margens do intermediário. Nos bons meses, chegava a R$ 800.

Hoje, Edilson é presidente da Cooperativa ReciclaRecife e sua renda mensal está próxima de R$ 3.200. A diferença não veio de sorte nem de um programa governamental. Veio de uma decisão coletiva tomada em uma reunião de garagem, em 2019, por 36 catadores que decidiram que não queriam mais depender de atravessadores.

A decisão de se formalizar

O processo de formalização foi longo e burocrático. Levou quase um ano para registrar a cooperativa, abrir conta bancária e conseguir o primeiro contrato direto com uma empresa de reciclagem. Durante esse período, os 36 sócios continuaram trabalhando individualmente, sem garantia de que o projeto daria certo.

"Teve gente que desistiu no meio. Não é fácil. Você tem que confiar nas pessoas, tem que dividir o dinheiro, tem que tomar decisão junto. Para quem sempre trabalhou sozinho, isso é difícil", conta Edilson.

"O atravessador pagava R$ 0,40 por quilo de papelão. Hoje a gente vende direto para a indústria por R$ 1,20. É o mesmo papelão. A diferença é que agora fica com a gente." — José Edilson dos Santos, presidente da Cooperativa ReciclaRecife

A virada: o contrato com São Paulo

O ponto de inflexão foi em 2022, quando a cooperativa conseguiu um contrato de fornecimento com uma indústria de embalagens de São Paulo. O contrato exigia volume mínimo mensal, regularidade de entrega e certificação de origem dos materiais — exigências que nenhum catador individual conseguiria cumprir, mas que a cooperativa, com 36 membros trabalhando de forma coordenada, conseguiu atender.

O faturamento dobrou em um ano. Em 2024, a cooperativa fechou o ano com R$ 1,2 milhão em receita bruta — um número que parecia ficção científica na reunião de garagem de 2019.

O que vem depois do dinheiro

Com a estabilidade financeira, a cooperativa investiu em estrutura. Construiu um galpão próprio, comprou uma prensa para compactação de materiais e contratou um contador. Três cooperados fizeram cursos técnicos de logística e gestão de resíduos.

O modelo da ReciclaRecife está sendo estudado pela Prefeitura do Recife como referência para um programa de apoio a outras cooperativas de catadores na cidade. Edilson foi convidado a apresentar a experiência em um seminário nacional de economia solidária em Brasília, em agosto.

Ele vai de ônibus. "Avião eu ainda não aprendi a usar", diz, com um sorriso que não precisa de explicação.